Por Aldo Henrique Batista Rodrigues
Em um ambiente cada vez mais regulado, competitivo e orientado por transparência, as demonstrações contábeis das cooperativas de crédito deixaram de ser apenas uma obrigação formal para se tornarem instrumento central de governança, prestação de contas e relacionamento com o associado. Nesse cenário, as notas explicativas assumem papel fundamental: são elas que transformam números em informação útil para compreensão clara das demonstrações contábeis.
A compreensão da relevância das notas explicativas pelos dirigentes de cooperativas não é apenas uma questão técnica contábil. Trata-se de responsabilidade tanto estratégica quanto de governança e transparência. A qualidade dessas divulgações impacta diretamente a percepção de solidez, transparência e credibilidade da cooperativa de crédito.
Normas do Banco Central do Brasil, como a Resolução BCB nº 2, de 12 de agosto de 2020, e as regras de evidenciação previstas no Cosif - Plano Contábil das Instituições do Sistema Financeiro Nacional, deixam claro que as notas explicativas são parte integrante das demonstrações contábeis e devem fornecer base suficiente para sua correta interpretação.
Muito além do rodapé: o que são, de fato, as notas explicativas
Na prática, muitos dirigentes ainda enxergam as notas explicativas como complemento secundário dos demonstrativos contábeis e relegam sua responsabilidade estritamente à área contábil, o que se torna um erro de governança. As notas não são um mero apêndice, são peças indissociáveis do conjunto de demonstrações, porta-vozes da administração no esclarecimento dos números contábeis.
A própria Resolução BCB nº 2/2020 estabelece que as demonstrações financeiras devem ser acompanhadas de notas explicativas contendo informações relevantes sobre critérios contábeis, políticas adotadas, composição de saldos, riscos e demais elementos necessários à adequada compreensão da posição patrimonial e do desempenho da instituição.
São alguns dos principais objetivos das notas explicativas:
• descrever políticas contábeis adotadas;
• detalhar critérios de mensuração de ativos e passivos;
• explicar estimativas e julgamentos relevantes;
• abrir e esclarecer a composição de contas relevantes;
• evidenciar riscos e exposições;
• divulgar contingências e compromissos;
• informar fatos eventos relevantes, inclusive os subsequentes;
• esclarecer efeitos de mudanças normativas e contábeis.
Sem essas informações, os números perdem contexto e número sem contexto gera interpretação incorreta.
É preciso entender que o associado é o principal usuário
Nas cooperativas de crédito, há uma diferença estrutural em relação a outras instituições f inanceiras: o principal usuário das demonstrações contábeis é o associado. Ele não é um mero cliente, é coproprietário do negócio.
Isso muda o foco da divulgação. Não basta atender formalmente à norma; é preciso comunicar com clareza, transparência e em uma linguagem que alcance o perfil dos associados. O associado precisa entender, dentre outras várias informações:
•como está a carteira de crédito;
• qual o nível de provisões para perdas;
• como evoluíram os fundos e reservas;
• qual o nível de capitalização;
• como foi a performance econômico-financeira da cooperativa;
• quais riscos estão presentes;
• quais transações estão ligadas aos principais saldos contábeis;
• quais critérios foram usados nas mensurações.
Notas explicativas excessivamente padronizadas, genéricas ou copiadas de modelos externos enfraquecem a transparência. O relatório deve refletir a realidade da cooperativa, não um modelo abstrato.
Clareza, nesse contexto, não é simplificação indevida é comunicação responsável.
A responsabilidade da administração: indelegável
Embora a elaboração técnica das notas explicativas seja normalmente conduzida pela área contábil, a responsabilidade final pelo conteúdo é da administração da cooperativa. Isso inclui Diretoria Executiva e Conselho de Administração, cada qual dentro de suas atribuições.
Essa responsabilidade não é meramente formal. Ela envolve:
• supervisão ativa: dirigentes devem conhecer os principais critérios contábeis adotados e seus impactos;
• questionamento qualificado: variações relevantes precisam ser explicadas de forma consistente nas notas;
• coerência narrativa: as notas explicativas devem estar alinhadas à estratégia, aos riscos e à realidade operacional;
•suficiência de divulgação: cumprir o mínimo normativo nem sempre é suficiente para informar bem;
• foco no usuário: a pergunta-chave deve ser - o associado consegue entender?
A aprovação das demonstrações contábeis pelo Conselho de Administração deve incluir leitura crítica das notas explicativas, não apenas dos quadros numéricos.
Notas explicativas como ferramenta de governança
Dirigentes de cooperativas frequentemente investem em planejamento estratégico, gestão de riscos e controles internos corretamente. Mas nem sempre percebem que as notas explicativas são uma vitrine consolidada de tudo isso.
• Boas notas explicativas:
demonstram maturidade de governança;
• evidenciam qualidade de controles;
• mostram domínio técnico da gestão;
• reduzem ruído com auditores e regulador;
• fortalecem a prestação de contas aos associados.
Elas funcionam como uma “ponte” entre a gestão técnica e a compreensão do usuário final.
Boas práticas para dirigentes
Algumas práticas que ajudam a elevar o padrão das notas explicativas nas cooperativas de crédito:
• exigir versões preliminares, antes mesmo da auditoria, para leitura da administração;
• solicitar explicações em linguagem clara dos principais tópicos;
• garantir aderência explícita às normas do Banco Central;
• evitar textos genéricos que não reflitam a operação real;
• incluir explicações sobre variações relevantes de saldos patrimoniais e em resultados;
• assegurar consistência entre relatório da administração e notas.
Notas explicativas não devem ser apenas corretas, devem ser úteis.
Conclusão: transparência que sustenta o cooperativismo
O modelo cooperativo é sustentado por confiança, participação e transparência. As demonstrações contábeis, especialmente suas notas explicativas, são instrumentos essenciais para manter esse alicerce.
A Resolução BCB nº 2/2020 e o Cosif fornecem o arcabouço normativo. Mas é a atuação diligente da administração que transforma exigência regulatória em comunicação de qualidade.
Quando bem elaboradas, as notas explicativas cumprem seu papel maior: permitem que o associado, verdadeiro dono da cooperativa, compreenda, avalie e confie na instituição que ajuda a construir.
Preencha o seu e-mail no campo abaixo para receber nosso informativo mensal,
com notícias e informações sobre a CNAC e o cooperativismo.