Por Rui de Assis Vasconcelos
A concessão de crédito é uma das atividades centrais das cooperativas de crédito, impulsionando o desenvolvimento econômico de seus associados e comunidades em que atuam. Essa operação, aparentemente simples, é intrinsecamente ligada a uma série de riscos que, se não forem adequadamente gerenciados, podem comprometer a solidez e a sustentabilidade da instituição.
De forma resumida, a seguir, iremos explorar o processo de concessão de crédito, desde a análise inicial até a cobrança, destacando a correlação com os diversos riscos que podem se materializar em uma operação de crédito.
Análise de crédito: a base para uma decisão segura
O processo de concessão de crédito inicia-se com a análise de crédito, uma etapa crucial para avaliar a capacidade de pagamento e o perfil de risco do tomador. Esta análise vai além dos dados financeiros, buscando compreender o histórico do cooperado, sua situação econômica e seu comportamento de pagamento dentro e fora da cooperativa.
Riscos associados à concessão de crédito
A concessão de crédito expõe a cooperativa a uma gama de riscos que se interligam e podem se materializar em diferentes momentos.
Na fase da concessão do crédito, a cooperativa deve coletar e verificar informações, como comprovantes de renda, histórico de crédito (SPC, Serasa, outros) e outros dados cadastrais. A precisão e a integridade dessas informações são fundamentais. Erros na análise ou na elaboração do instrumento contratual, por exemplo, podem configurar um risco operacional, que se manifesta em perdas resultantes de falhas em processos internos, pessoas e sistemas, ou de eventos externos. A automação e a padronização dos processos, aliadas à capacitação da equipe, são essenciais para mitigar este risco.
O risco de crédito é o mais evidente e se materializa na inadimplência do tomador, ou seja, na incapacidade ou recusa de honrar seus compromissos financeiros. A gestão eficaz deste risco envolve a diversificação da carteira de crédito, a definição de limites de exposição por cooperado e a constante monitorização do perfil de risco.
Um risco cada vez mais relevante é o risco socioambiental. Ele surge quando o tomador de crédito se envolve em atividades que geram impactos negativos no meio ambiente ou na sociedade, como desmatamento ilegal, trabalho escravo ou práticas discriminatórias. A cooperativa, ao financiar tais atividades, pode ter sua reputação manchada, enfrentar sanções legais e regulatórias, e até mesmo perder a confiança de seus associados e da comunidade. A análise de crédito deve, portanto, incluir uma avaliação rigorosa dos aspectos socioambientais do tomador e do projeto a ser financiado, bem como realizar o acompanhamento das atividades e cadastro do associado ao longo do prazo da operação. Como em todos os processos internos da cooperativa, vale a máxima: conheça o seu associado.
O risco de mercado pode se manifestar de diversas formas. Se, após a inadimplência, a cooperativa precisar tomar um bem como garantia (por exemplo, um imóvel ou veículo), e esse bem não estiver bem avaliado no mercado ou se desvalorizar rapidamente, a cooperativa pode não conseguir recuperar o valor total do crédito concedido. Flutuações nos preços de commodities, taxas de juros e câmbio também podem impactar a capacidade de pagamento dos cooperados e o valor das garantias. Daí, decorrre a importância de se realizar uma criteriosa análise da garantia quando da concessão do crédito.
Mesmo que um bem tomado como garantia seja de boa qualidade e bem avaliado, a cooperativa pode enfrentar o risco de liquidez, se não houver compradores dispostos ou capazes de adquiri-lo em um prazo razoável. Isso pode imobilizar recursos da cooperativa, podendo afetar seus indicadores e até afetar sua capacidade de conceder novos créditos. A diversificação das garantias e a avaliação da liquidez dos ativos são estratégias importantes para mitigar este risco.
Outros riscos relevantes: IRRBB e risco cibernético
Além dos riscos tradicionais associados à concessão de crédito, as cooperativas devem estar atentas a outros riscos emergentes e específicos, como o IRRBB (Risco de Taxa de Juros na Carteira Bancária) e o risco cibernético.
O IRRBB pode impactar o spread da cooperativa, especialmente em operações concedidas com taxas de juros pré-fixadas, pois variações nas taxas de mercado podem reduzir a margem financeira esperada, afetando a rentabilidade das operações.
Esse risco exige uma gestão ativa para monitorar o comportamento das taxas e ajustar estratégias de precificação das operações. Já o risco cibernético decorre da crescente digitalização dos processos de crédito, expondo a cooperativa a ameaças como ataques virtuais, fraudes eletrônicas e vazamento de dados sensíveis dos cooperados.
Mitigar esses riscos requer investimentos em segurança da informação, governança tecnológica e capacitação contínua das equipes, assegurando a integridade e a sustentabilidade das operações de crédito
Da concessão à cobrança
Após a aprovação e liberação do crédito, a cooperativa deve manter um acompanhamento contínuo da carteira. A monitorização proativa permite identificar sinais de alerta de possível inadimplência e agir preventivamente. O gerente responsável deve ser capaz de compreender o estágio de cada operação e a situação do tomador no mercado financeiro.
Quando a inadimplência se materializa, inicia-se a fase de cobrança. Este processo deve ser conduzido de forma ética e eficiente, buscando a recuperação do crédito sem prejudicar o relacionamento com o cooperado. As estratégias de cobrança podem variar desde o contato amigável e a renegociação da dívida até a execução judicial, em último caso. Nesse momento, torna-se fundamental a compreensão do cumprimento das normas contábeis, no sentido de que a capacidade de pagamento do associado seja definitivamente e adequadamente refletida na classificação de risco da operação e nas respectivas provisões contábeis.
Conclusão
Ao compreender e mitigar os riscos operacional, de crédito, socioambiental, de mercado e de liquidez, a governança das cooperativas pode proteger os ativos, garantir a sustentabilidade e continuar a cumprir a missão de promover o desenvolvimento de seus associados e da comunidade. Gerenciar riscos de forma transversal requer uma abordagem integrada e estratégica, visando mitigar impactos tanto nas f inanças quanto na reputação da cooperativa. A concessão de crédito em cooperativas é um processo que exige uma gestão de riscos contínua e integrada.
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